Multidão acompanha cortejo de Raymundo da Padaria

Fotos: José Dilson
Dizem que a morte revela o tamanho da amizade conquistada por quem partiu para o plano superior. Isto, mais uma vez, ficou provado no acompanhamento do esquife do Senhor Raymundo Severo dos Reis, que na manhã desta segunda-feira (12), nos deixou e partiu para outro plano, onde certamente terá um bom lugar entre aquelas almas boas que descansam em paz na casa do Pai.
 
Viveu apenas, 73 anos, relativamente bem vividos, de comportamento ilibado e temperamento calmo, sempre afeito à boas amizades, Raymundo da Padaria, assim passou a ser conhecido o agricultor, comerciante de cereais, proprietário de caminhão,  produtor rural, entre tantas atividades exercidas, nascido na caatinga do Sertão de Canudos, que resolveu montar uma pequena padaria na Praça Duque de Caxias, principal da cidade de Euclides da Cunha, para onde migrou, ainda rapaz, quando as terras da Fazenda Tromba e Sítio do Thomaz ainda pertenciam ao território euclidense. 
A clientela cresceu e não tardou muito para a pequena padaria e mercearia ter que mudar de lugar e ir para um prédio, na mesma praça, onde pudesse acomodar os dois comércios com oferta de produtos bastante variados e maior comodidade para os fregueses, a maioria formada de pessoas simples da cidade e do interior do município, atraídos, talvez, pela simplicidade do dono do estabelecimento, a oferecer outros produtos alimentícios cada vez mais procurados pela clientela, especialmente donas de casa e pequenos comerciantes estabelecidos no meio rural, que de uma cadeira cativa posicionada em uma das entradas do estabelecimento denominado Padaria e Mercado Santo Antônio, recepcionava a todos, que nem precisava proferir palavras de agradecimento pelas compras feitas, preferência, etc., pois no simples olhar daquele senhor subentendia-se uma mensagem de agradecimento. 
Daquele cantinho, de onde conduzia, em família, seus negócios, Raymundo também conversava com os amigos que o procuravam, principalmente ao final da tarde, para uma boa conversa, que certamente vai deixar saudade e boas lembranças para seus familiares, fregueses e muitos amigos que soube conquistar ao longo dessas décadas vividas, até que a saúde daquele homem sertanejo foi fragilizada e, por algumas vezes, até causou grandes sustos aos seus familiares e amigos, passando por internações hospitalares preocupantes, mas, superando a todas essas complicações.
Morador da mesma rua e vizinho deste repórter, não faz muito tempo, em uma dessas crises violentas de hipoglicemia que o atormentavam e aos seus familiares, com ajuda de outros vizinhos e da filha Ana - com quem morava e lhe fazia companhia depois que perdeu a esposa Loló, vitimada por um infarto do coração, e a viuvez prematura de Ana, que a levou a residir com o pai, onde também contava com os cuidados da professora Sheila, outra filha que também se dedicava a cuidar do seu genitor -, Raymundo foi socorrido e, mais uma vez, conseguiu superar mais uma etapa difícil desta luta pela sobrevivência, contra patologias que insistiam em lhe tirar a paz que tanto precisava e realmente demonstrava tê-la.
 
Ultimamente, Raymundo andava triste, dava sinais de preocupado, problemas de ordem familiar, nada envolvendo as filhas, mas sim, o único filho, a quem tinha carinho e atenção especial, por causa de uma união matrimonial malsucedida, perda recente de um irmão que residia no meio rural de Canudos, etc. 
Talvez, quem sabe, o acúmulo dessas preocupações para uma pessoa de comportamento introspectivo, reservado até demais, tivessem contribuído para o agravamento do estado de saúde e, o coração, já fragilizado, desta vez não suportou e o infarto fulminante o pegou quando assistia a um programa jornalístico de TV, por volta das 7h15, mesmo que socorrido imediatamente pelo vizinho e amigo Maneca Canário, com ajuda de pedreiros que trabalhavam na reforma de sua residência, conduzindo-o para o Hospital Municipal, onde já chegou praticamente sem os sinais vitais, segundo foi informado por um parente.
 
Quando a notícia de sua morte foi divulgada, imediatamente familiares e pessoas amigas começaram a chegar vindas de várias partes da cidade e até de outros municípios. À noite, a Rua onde mora ficou totalmente tomada pelos carros dos amigos que foram levar solidariedade e conforto à família enlutada e velar o corpo do amigo que acabara de nos deixar.
Logo nas primeiras horas da manhã, dezenas de pessoas já chegavam para a missa de corpo presente, que foi celebrada pelo padre Robson Lima, para em seguida, num grande cortejo formado por pessoas e automóveis que passou pela Praça Duque de Caxias, onde está o estabelecimento comercial fundado por Raymundo, que por vários anos esteve presente, num gesto de despedida, pela última vez.
Apesar de ter um carro funerário disponibilizado para o transporte do caixão, os amigos e familiares preferiram que o esquife fosse carregado por eles mesmos. Às 09h49, depois de uma pequena homenagem e oração feitas pela Sra. Graça, amiga e cliente residente na Rua Santa Cruz, onde o prédio da Padaria e Mercado Santo Antônio faz esquina, aplausos foram ouvidos, repetindo-se o gesto praticado pela multidão, quando o caixão começou a deixar a residência da família. Raymundo foi sepultado no jazigo da família.
 

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